carta

CARTA ABERTA À CARTA

Belém, 3 de maio de 2015.

Cara carta,

Escrevo a você porque não tenho, no momento, a quem escrever. Já faz cerca de 7 anos que não escrevo a ninguém, e acho que a última carta que eu recebi foi há 11 anos. Depois de tanto tempo sem escrever uma carta a alguém, me perguntei se eu ainda sabia como te redigir. Então, resolvi tentar. Como não tenho a quem escrever atualmente e, mesmo que eu tivesse, não sei se conseguiria escrever algo decente, não sei se ainda sei escrever algo neste estilo, então resolvi escrever diretamente a ti, carta, ou Carta, não sei como te chamar. Não sei se me refiro a ti em minúsculo, de forma mais trivial, ou se uso o maiúsculo, como se estivesse escrevendo a uma ideia geral ou pura de carta.

Se você me permitir tentarei me referir a ti em ambos os sentidos, a carta objeto e a carta ideia. Isso pode parecer algo mais íntimo mas houve um tempo, sim, em que fomos íntimos. Houve um tempo em que eu sabia exatamente o que era receber uma carta em minhas mãos, ir até a caixa de correio ou receber um aviso em casa: “Há uma carta para você”. Houve um tempo em que eu precisei aprender a como te escrever, como era sua forma, como te usar, bem como, naquele tempo, eu sabia exatamente o que era a expectativa, todas as semanas, de receber aquele envelope com um papel dentro, esperando a letra de uma pessoa amiga ou de uma namorada, ou algum comunicado de alguma instituição de pesquisa. Claro, havia os cartões de Natal e as felicitações de aniversário. No caso dos aniversários, as indefectíveis cartas de minha mãe, de meu pai e de meus tios sempre com suas letras me desejando bençãos, felicidades e me ponto a par das saudades que eles sentiam.

Não eram notícias. O teu texto, carta de meus parentes e amores, não trazia notícias. Corriqueiramente eu podia chamar o que havia em ti de notícias de alguém ou de algum canto que me chegavam, mas hoje eu percebo que a palavra “notícia” era pouco para o que os teus papéis me traziam. Cada carta que eu recebia era antes um ponto de vista sobre o mundo, um recorte e uma escolha que se materializava em papel e em palavras de alguém que me amava, ou que me tinha apreço, porque senão não se daria ao trabalho de me escrever – e de, ao te escrever, se inscrever em minha vida.

Digo isso porque escrever cartas dava trabalho. Você, carta, sempre exigiu isso de quem se dispusesse a tentar te escrever. Eu me lembro que havia o dia, fosse na semana, fosse no mês, dependia sempre do fluxo de correspondência, que eu deveria me dedicar ao ritual de escrever cartas. Fosse como fosse: era necessário parar e buscar o papel, o lápis ou a caneta; era necessário o rascunho, era necessário pensar o que deveria ser dito na carta (ou não) e como deveria ser dito. Principalmente quando eu tinha que enviar você para alguém que eu amava. Era preciso parar e pensar, era preciso aprender a escolher as palavras, o tom correto da frase, a pontuação. Isso porque a pessoa que iria te receber não estava presente, ela era, antes, alguém que seguia sua vida em seu tempo, seu ritmo, seus acontecimentos, sua privacidade, seus problemas e seu lugar, e que vivia em meus pensamentos e sentimentos, mas à distância. Essa pessoa era distante. E exatamente por estar distante eu deveria ter muito cuidado com o que eu dissesse ao compor-te, pois ela, ao receber-te, teria um recorte do que eu considerava importante contar, de como eu me sentia, de alguma forma, ao te ter em suas mãos, tinha não exatamente a mim, mas à forma com que eu deixava meus sentimentos transparecerem, minha forma de saber como esta pessoa era importante, minha maneira toda própria de dizer o que eu sentia em relação a ela. Em outras palavras, ela tinha, em suas mãos e enquanto o papel durasse, ou o seu sentimento por mim durasse, registros e mais registros do que eu escolhia dizer a ela, formas e mais formas de como meus afetos em relação a ela se dispunham, documentando minhas amizades, meus amores, minhas disposições.

Cada vez que eu te escrevia e mandava a alguém, era como se eu fotografasse o que eu sentisse, corrigisse para que essa expressão tivesse o melhor efeito possível, e que o efeito de minhas palavras, o registro de minhas opiniões, a narrativa do recorte de minha vida pudessem chegar a alguém de forma a me manter vivo nessa pessoa. Hoje percebo que, de certa forma, ao escrever cartas aos meus amigos, aos meus parentes, namoradas, de alguma forma eu procurava me manter vivo. Existir, talvez. Sim, é isso. Você, carta, me ajudou a existir e eu agradeço muito a você por essa oportunidade de ter deixado algo.

Escrever várias versões de ti às pessoas que me eram caras também foi um grande aprendizado. Quando eu menino no interior de São Paulo estava ainda na escola, me lembro dos manuais de redação e literatura explicando sobre os estilos de escrita, acho que os estilos de redação. Havia a descrição, a dissertação e havia você, carta. Naquela época d’ eu menino não entendia direito porque você constava nos meus livros escolares, não entendia como algo tão corriqueiro era ensinado, como algo tão íntimo exigia um método de redação. Hoje eu entendo, ah, como eu entendo! Hoje eu entendo perfeitamente a necessidade de estabelecer uma série de protocolos de escrita: a data, a saudação mais ou menos formal em relação a quem te recebesse; em como usar a primeira pessoa, em como usar os adjetivos, de que forma escolher as palavras para deixar claro o que estava acontecendo em meu contexto de escrita – que era o meu contexto de vida! Acertadamente (hoje eu percebo) eu e meus colegas achávamos difícil escrever cartas, porque escrever você se aproximava de um texto de caráter mais literário, portanto com uma carga alta de subjetividade – ou seja, uma carga alta de nós mesmos! Era o tempo em que fugíamos de ti nos vestibulares, preferíamos a dissertação, mais direta, mais objetiva (só aparentemente, hoje eu sei) e, críamos, menos sujeita a riscos. Ao menos, hoje, sei que eu e meus colegas de escola acertamos em um ponto: uma carta sempre está sujeita a riscos.

Por exemplo: quando eu muito jovem escrevi uma carta para uma de minhas primeiras namoradas. Isso foi há muito tempo. Escrevi uma carta boba, infantil, besta. Contava trivialidades, contava das minhas saudades e de minha vida sem muitos atrativos no interior. E eu, naquela carta, tratava essa antiga namorada por “você”. Eu me lembro direitinho quando recebi o texto dela, em resposta ao meu. Nunca me senti tão envergonhado! Uma carta limpa, correta, respeitosa, extremamente bem escrita, com uma bela letra, em que ela me tratava por “tu”. Não foi na linguagem coloquial, não foi por meio de dissertações, ensaios e livros, que eu aprendi o pronome de tratamento adequado ao amor. Foi com você, carta, por meio das palavras dela. Foi em uma carta que aprendi que o sujeito do amor era a segunda pessoa do singular. Ela não me chamava de “você”, para ela eu era um “tu”, algo destacado, algo respeitoso. Eu existia como um “tu”, como algo próprio, singular. Nunca, em toda minha vida, alguém havia se referido a mim como “tu”. Nunca ninguém havia me tratado com tanta deferência, e eu me senti, lendo aquela carta, diminuído… e amado. Foi contigo, carta, que algo em mim, na leitura daquelas páginas por ela escritas, amadureceu uns dez anos. E, de novo, te agradeço. Por ter errado com ela naquela primeira carta, por ter aprendido a me corrigir.

Eu creio que eu ainda teria muito a te dizer. Mas eu ainda me lembro que uma carta precisa de um limite. De um fim, e que saber fazer um fim em uma carta era tão importante quanto a correta descrição dos assuntos tratados. Porque o fim de uma carta, minha amiga, era sempre a promessa de que algo continuaria, de que uma conversa indireta em papel transcorreria suspendendo o cotidiano quando o envelope fosse rasgado, quando o papel fosse tocado, quando o texto fosse lido e possuído por aquele que te recebesse. Que ele geraria no leitor da carta, se tudo desse certo, o desejo de escrever também, de se expressar, de responder e preencher aquele diálogo feito de palavras, escolhas, silêncios e suspensão de distância.

Não acho que tu irás desaparecer. Não creio nessa hipótese. Não escrevo, inclusive, com um certo saudosismo achando que você é parte de um passado, parte de uma escrita em extinção. Nada disso. Se não recebo cartas de alguém, o responsável sou eu. Fui eu quem deixou de cultivar tua forma, fui eu quem deixou de cultivar uma escrita mais detida, fui eu, talvez, que desaprendi o que é viver em distância. Escrevo apenas para retomar o contato contigo e, quem sabe, retomar a prática, por mais “out of date” que isso possa parecer.

Até a próxima, minha cara!

Com todo o carinho,

Teu,

Renato.

Painel de cartas antigas, fotos e documentos pessoais feita pela artista plástica Elcely Cintra em sua exposição “Infinito Particular”. Fonte: Pref. Mun. Juiz de Fora. http://www.pjf.mg.gov.br/noticias/view.php?modo=link2&idnoticia2=16811

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