Um gosto de frustração. Claro, elas não me frustram, mas eu sim, eu as frustro quando não nos acoplamos. Estar sobre elas todos os dias, fazer-lhes funcionar, acoplar-me a elas, deixar que nos sirvamos um do outro. Bicicleta/máquina, fazer-se máquina de prazer de movimento: eu e elas. Minhas bicicletas: uma negra, outra azul; uma grande, outra pequena; uma toda medida certa, outra flexível, polivalente, ajustável.
Ambas máquinas, ambas me lembrando que eu também sou máquina – máquina de carne e osso, máquina de desejo incerto, desejo errante e de desejo de errância. Para quem vive desejando a errância pelo mundo nada melhor do que estar acoplado a uma máquina lembrando-se máquina a ganhar o mundo como se ele não tivesse mais limite para revelar-se estranho e tão cheio de rugosidades: os musgos escorregadios, a lama nas sarjetas, a aspereza do cimento, as calçadas irregulares, as várias camadas de piche e asfalto, sinais e mais sinais e mais sinais disto que se chama cidade e que lhe faz pensar que nunca se está só.
E, no entanto, acoplado a uma bicicleta, em algum canto de mim sempre estou só, mesmo em total comunicação com quem está ao meu lado, mesmo guiando quem está comigo. Porque, sobre uma de vocês, tudo depende de mim: uma decisão mais rápida, um desvio, a busca por um caminho, ou mesmo uma fresta entre os carros – uma fresta que bem poderia ser um entre-tudo.
Estar em cima de uma de vocês é descobrir frestas que são fenômenos entre todas essas coisas que se querem corpos na cidade.
Eu sei que eu as frustro quando deixo vocês paradas em casa, quietas, encostadas. Eu sei que aí vocês são só objeto, e que não é esta a condição de vocês cuja simples existência pede o movimento, pede a vida!
Então eu peço apenas um pouco mais de paciência para que eu ceda completamente meu cotidiano a vocês. É que eu também tenho medo, como toda máquina humana tem medo – medo de perdê-las, medo de vocês sejam tomadas de mim. Mas é preciso que o cuidado sobreponha o medo, minhas caras. Enquanto isso faço jus a vocês bem menos do que vocês merecem.
Só peço um pouco mais de paciência…