
Acompanho a nova série Cosmos – a Spacetime Odissey pelo NetFlix. A série está ótima! Embora tenha um pouco mais de “licenças poéticas”, digamos assim, ao tratar de buracos negros, por exemplo (talvez influência do produtor, Branon Braga, que também produziu episódios da série Star Trek: Voyager, Next Generation e Star Trek: Enterprise), a série Cosmos atual mantém o propósito de divulgar o conhecimento científico sem perder o foco no método de produção do conhecimento. Reforça, constantemente, a necessidade do questionamento contínuo do pensamento pela via lógica e racional, com a devida apresentação e crítica das evidências, sobre os argumentos de autoridade e sobre dogmas de qualquer espécie. Sem contar que Neil DeGrace Tyson é um apresentador muito bom.
(Ciência e método científico: coisas que deveriam ser ensinadas corretamente e continuamente nas escolas, não? Têm feito falta no Brasil, atualmente.)
Outro ponto que chama a atenção é a presença bem maior de conteúdos ligados à biologia, à astrobiologia e as constantes menções à teoria da Evolução. Gostei bastante dessa união entre Astrofísica e Biologia trazida pela série.

Mas a série atual me deixou muito mais sensível à uma memória anterior, uma memória de minha infância. Quando criança tive alguns heróis: Emerson Fittipaldi, Zico, Valdir Peres e Nelson Piquet foram alguns deles. O Ultraman, o outro. Capitão América, idem. A lista era grande. Mas agora, aos quarenta e dois anos, acredito que somente um deles realmente durou, no sentido de se manter uma referência afetiva e intelectual ainda funcionando em minha vida.
Carl Sagan.
Eu era bem criança quando a série Cosmos estreou no Brasil, em 1982. Não me lembro do horário em que a série era exibida, talvez, salvo engano, sábado de manhã. Mas me lembro exatamente do que eu senti quando assisti ao primeiro episódio da série: fiquei maravilhado pela música composta por Vangelis, e me lembro de achar linda a ideia de que uma nave espacial imaginária poderia ser feita com um dente-de-leão.
As imagens dos planetas… Júpiter e sua mancha vermelha, essa tempestade eterna, e Saturno e seus anéis eram fantásticos! E como Vênus, parecendo um inferno, me dava medo! Mas o maravilhoso da série – acho que isso foi o que ela deixou em mim, definitivamente – foi a sensação de que somos parte de alguma coisa incrivelmente maior, absurdamente maior, alcançável por um misto de imaginação e inteligência lógica. Essa sensação de ser uma pequena parte de algo muito, muito maior: um Universo. Isso nunca me abandonou.
Digo que nunca me abandonou porque, volta e meia, essa sensação sempre acaba voltando. Ela parece adormecida durante algum tempo, mas sempre retorna quando leio algum texto científico, ou quando me reencontro com os textos de Spinoza, ou de Nietzsche. Essa sensação de abertura para coisas gigantes, para formas e níveis de realidades muito maiores – talvez mesmo não imaginadas – tudo isso reaparece, de forma muito mais intensa, e muito mais bela, à medida que vivo e à medida em que leio.
Mas tudo começou, repito, com Carl Sagan. Fico feliz em saber que eu fui uma daquelas milhões de pessoas que se aproximaram da ciência a partir da série Cosmos, como fico feliz em perceber que, de alguma forma, esse interesse pela ciência orientou escolhas futuras, como ter feito a graduação em História e me manter aberto para as relações entre História, Ciência, Artes, Linguagem e Metodologia Científica.
Sobre a música tema da série, composta por Vangelis, me desculpem, mas não consigo escutá-la sem chorar ou ficar profundamente emocionado. Coisas de alguém que, aos 42 anos, já pode lembrar com clareza, mas com alguma distância, das sensações que sentia, e que não entendia, quando era apenas um menino de 9 anos.
Pra quem talvez se lembre, e para quem não conhece, deixo aqui a abertura da série Cosmos. Para assistir a todos os episódios, via YouTube, o link está aqui.
Não deixem de assistir. Ainda hoje a série é emocionante ao ponto de mudar vidas!