… é a minha bicicleta de uso diário. Comprei-a há quase dois anos atrás em uma dessas grandes lojas de departamentos aqui de Belém do Pará. Queria uma bicicleta que não fosse cara mas que tivesse alguma qualidade.

Acabei gostando de uma Caloi Andes, com preto-fosco. Tinha um quadro de aço-carbono bonito e resistente, embora com soldas que pareciam ser feitas por um robô desregulado, um câmbio bem ruinzinho, rodas pesadas e uns pneus que nem me lembro mais como eram, o que não faz muita diferença.
Em termos de desejo uma Caloi era a minha segunda opção. Isto porque passei minha adolescência inteira usando uma bicicleta Monark, e me tornei fã de carteirinha da marca. Sem desmerecer a Caloi, eu via essa marca como a “concorrente”. No entanto, creio que desde o fim dos anos 1990, nunca mais vi uma Monark em nenhuma loja; sei que a marca ainda existe mas não tenho nenhuma ideia do que ela anda produzindo. E diante de algumas coisas simplesmente horripilantes que vi nas lojas, em relação à qualidade dos produtos, acabei me decidindo por uma Caloi.
Ainda que, por causa disso, eu não realizasse uma sentimental journey completa, a bicicleta serviu exatamente ao que eu queria. Claro que eu poderia ter investido um dinheiro a mais e comprado logo de início uma bicicleta melhor, com quadro de alumínio alienígena, transmissão com catracas de 11 marchas, pintura fosforescente térmica anti raios ultravioleta, etc. etc. No entanto, de início, eu não queria consumir uma bicicleta, eu queria aprender sobre bicicleta e com uma bicicleta. Por isso escolhi aquele modelo, pois eu precisava de uma base minimamente boa para experimentar: que peças trocar, que tipos de coroas e catracas escolher, quais os melhores materiais? Qual o nível de qualidade das peças? E mesmo, quais elas são? Como “se virar” em caso de problemas? Ritmo de pedalada, como se obtêm um decentemente? Precisava de tempo para obter um mínimo condicionamento físico, aprender mais sobre transmissão de bicicletas, e me acostumar com o trânsito louco-furioso-psicopático desta minha cidade amada idolatrada esquartejante transe da terra.
Sem esse processo de começar com uma bicicleta beeem mediana e descobri bicicletarias, peças, bancos, sistemas de transmissão da Shimano, como não fazer para os joelhos doerem, como sair rolando na hora de cair sobre uma calçada para não ser atropelado por um ônibus, eu jamais teria me (re)apaixonado pelas bicicletas, pelo ciclismo urbano, nem aprenderia o básico do básico sobre mecânica de bicicletas. Também não teria perdido dez quilos, nem teria me livrado do stress nem recobrado a calma para muitas situações. Claro que eu ainda tenho muito a aprender com as bicicletas, mas, com a Lady Evil, posso dizer que já saí do analfabetismo ciclístico.
Mas por quê Lady Evil? Bom, quando eu olhei para a bicicleta pela primeira vez ela me pareceu uma menina tímida, bonitinha, promissora, mas muito recatada. Sabe aquela colega de escola, quando você tinha seus 15, 16 anos, que você sabe que é bonita e que tem um potencial enorme para se transformar em uma mulher sensual, autoconsciente se seu poder de sedução, uma mulher, em suma, que se sabe que será perigosa se descobrir os instrumentos certos? Pois é, foi assim que eu a vi.
E, como toda adolescente que à medida que cresce vai aprendendo mais sobre si mesma, vai deixando seus medos de lado, vai tomando tombos e ganhando respeito, assim eu quis que fosse com a minha bicicleta (e, por quê não, comigo mesmo?) No começo era uma bicicleta lenta e pesada, não mais que uma menina inexperiente. Hoje é uma bicicleta urbana negra, rápida, pronta para correr de ônibus, caminhões, vans e outras coisas como se fosse um mamífero pequeno correndo de dinossauros gigantes. Já é uma moça que consegue uma média de 21 km/h, chegando a manter média entre 24/26 km/h em asfalto regular e terreno plano, com picos de 30 km. Hoje mesmo, em vários momentos, engarrafamentos e lentidão em cruzamentos atrapalharam muito o ritmo das pedaladas, bem como a velocidade média. Mesmo assim, já é possível seguir mais rápido do trabalho para casa (média de 15 km) em um tempo mais rápido que de carro, em dias de cidade congestionada. Ou seja: com a bicicleta em boas condições, tenho um veículo ágil o suficiente para abandonar o carro em casa e cruzar a cidade para onde eu quiser ir com minha jovem menina perigosa e má!
Lady Evil, por fim, também por isto:
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muito bom… 🙂
Eis não apenas uma escolha de transporte mas também de qualidade de vida é aprendizado permanente. Forte abraço.