
Não tenho nenhuma vergonha em admitir que sou um saudosista da máquina de escrever. Embora eu não seja nenhum ludita, o fato de eu gostar tanto de máquinas de escrever se deve tanto a razões sentimentais quanto por questões ligadas ao trabalho. Sendo mais específico em relação a este ponto: eu tenho sérios problemas de concentração. Amo escrever, mas padeço para produzir alguma coisa pelo fato de que minha atenção em frente a um computador simplesmente falha. Eu gosto das máquinas de escrever exatamente por isso: além de possuírem uma história maravilhosa, elas são instrumentos perfeitos para a escrita de textos e mais nada. Todo o processo de escrita que elas permitem ajuda na produção do texto e, especialmente, na manutenção da atenção e do foco de produção. Por quê? Penso que por dois motivos:
1. Porque máquinas de escrever são implacáveis com erros. Se você errou, então errou! É preciso parar o processo, manchar o papel com uma borracha ou com algum corretor (o famoso “branquinho”) para datilografar a letra correta e retomar o processo. Com um instrumento tão inclemente com os erros, lógico, é preciso estar com a atenção toda concentrada no processo de datilografia, seja em um primeiro rascunho ou na reescrita de um texto.
2. A posição dos olhos. Máquinas de escrever como que “travam” o olhar de quem as usam ou em um único ponto, ou em uma única linha. Não se percorre uma folha de papel virtual inteira com o olhar seguindo o parágrafo se vai se depositando na página, nem se fica preocupado com o tipo de letra (Times, Arial, Garamond, etc.) que o texto vai apresentar. Em uma máquina de escrever a única preocupação é escrever e não errar, ou errar o mínimo possível, mantendo o olhar sobre um determinado ponto ou linha. Essa postura facilita muito a concentração no processo de produção do texto, porque desta forma pensamos apenas naquilo que precisamos escrever imediatamente ou naquilo que acabamos de escrever.
Claro, uma máquina de escrever possui algumas desvantagens que são determinantes para sua obsolescência. Uma delas é o retrabalho exigido para finalizar um texto: a necessidade de aprimorar um texto em uma máquina de escrever implica reescrever o texto todo ou, ao menos, várias de suas partes. Montar um original em uma máquina de escrever é uma operação artesanal que inclui recortar e colar papel com novos trechos datilografados, manchar o papel com corretores ou borrachas, se irritar com novos erros de datilografia e dispor de horas e mais horas para refazer o trabalho.
A segunda desvantagem é que o texto fica sempre preso ao seu suporte. Por se tratar de um processo mecânico de fixação do escrito no papel, é necessário alterar o suporte do texto para que as palavras sejam alteradas. Podemos dizer que, com o uso da máquina de escrever o texto fica definitivo no papel. Há uma beleza nisso dado o fato de que um manuscrito é único, é um original, um objeto quase que sagrado porque, se perdido, ficamos sem o testemunho do processo de pensamento de quem escreveu um texto. No entanto, ao tornar o texto independente de seu suporte físico, o computador abriu a era de uma escrita infinitamente flexível, infinitamente reprodutível, maleável e transformável. Um texto não fica fixo ao seu suporte, se transformando em algo potencialmente alterável e cheio de possibilidades de vir a ser outra coisa. Para quem mantém atividade incessante de escrita, a independência do texto de seu suporte que o computador propiciou é quase uma benção.
Entretanto, esse ganho não vem desacompanhando de novos problemas. O computador, ao se transformar em uma máquina cada vez mais integrada ao nosso cotidiano, deixou de ser um substituto da máquina de escrever para se tornar em um supereletrodoméstico que incorporou em si a televisão, os canais de informações, os brinquedos, os videogames, a locadora, o desejo sexual, o telefone, a câmera fotográfica… sem falar na internet, é claro. Enfim, em seu atual estágio de desenvolvimento, o computador incorporou uma série de ferramentas cujos usos eram, há pouco tempo, separados e independentes. Isso trouxe uma agilidade bem maior à nossa vida cotidiana, é claro, mas trouxe também mais um problema: a distração.
Para mim a distração é um problema grave. Sou daqueles que vão para a frente do computador e, por mais que estabeleça rituais de trabalho, que instale programas restritores de acesso a sites de notícias, por mais que me valha de programas que apliquem o método Pomodoro, eu sempre acabo me distraindo. Mesmo quando estou em um editor de textos que eu gosto (LibreOffice, por exemplo), acabo por ter problemas em me concentrar. Além disso, escrever no computador me cansa, pois o tempo todo tenho uma página inteira à minha frente como que esperando para ser preenchida, e acabo por ficar mais preocupado com o que tenho que preencher com que tenho que escrever. Percorrer os olhos em uma página de computador me cansa, quando não me exaspera! Tudo em um editor de texto me atrapalha: qual o espaçamento? Qual a fonte? Preocupo-me mais com o resultado final do que com processo de escrita em si mesmo. Quando vejo o relógio, minhas metas de produção já foram para o espaço. Não sei se outros leitores têm isso, mas eu sofro de uma espécie de “angústia” diante do computador que me faz pensar mais em terminar o texto, de ver o seu resultado final, do que em gostar do processo de escrever o texto, de senti-lo, de vê-lo aparecer aos poucos, de examinar as suas partes e de ficar focado escrevendo-o linha por linha, pensamento por pensamento.
De novo: não sou contra o uso do computador, de jeito nenhum! Adoro computadores. O problema, para mim, é o processo de trabalho. Mais precisamente: como recuperar o foco que eu tinha com a máquina de escrever, a necessidade de pensar o texto, de manter a atenção, aliando as características de produção de textos praticamente artesanais que a máquina de escrever proporcionava com a flexibilidade típica dos editores de texto contemporâneos?
Há mais ou menos dois anos procuro programas alternativos que de alguma forma combinassem o melhor da máquina de escrever com o melhor do computador. Alguns programas que experimentei são bem interessantes. Os melhores são, de longe, os chamados editores de texto distraction free, que diminuem o máximo possível fontes de distração de escrita. Em geral, todos estes programas funcionam em tela cheia, não apresentando mais do que um menu de opções básicas com comandos como espaçamento, negrito, itálico e sublinhado. Normalmente não dão opções para escolha de fontes, ou limitam estas opções ao mínimo necessário, como a escolha das fontes que aparecem na tela. Todas as possíveis fontes de distração são eliminadas ao máximo, fazendo com que o usuário do programa se concentre apenas na atividade de escrever. Não são programas para edição de texto, para formatar livros, tamanhos de página, cores de letras, etc. São softwares para uma outra natureza de trabalho: escrever originais, escrever textos puros.
Existem vários editores disponíveis no mercado hoje. Alguns são mais sofisticados em suas propostas, oferecendo sons relaxantes, imagens de fundo inspiradoras ou a possibilidade do usuário criar “temas” convenientes ao seu processo de criação, em suma, existem editores distraction free para todos os gostos e tipos de usuários.
Eu particularmente não gosto de editores muito customizáveis. Prefiro editores do tipo minimalista, com o mínimo de recursos possíveis. De todos os que eu experimentei destaco dois. O primeiro deles é o FocusWriter, um editor que possui versões para os principais sistemas operacionais existentes hoje (Linux, Windows e Mac). O programa apresenta apenas uma tela de um cinza azulado com o cursor, e mais nada. Há uma barra de ferramentas escondida no alto da tela, a partir da qual o usuário pode acessar as opções do programa que vão desde estabelecer objetivos diários, limitar e cronometrar o tempo de trabalho, contagem de páginas e de palavras, ligar ou desligar o barulho de máquina de escrever e produzir temas com novas fontes, espaçamentos de linhas, cores e fundos.
Usei o FocusWriter durante um bom tempo e garanto que, para a composição de textos puros ele é um dos melhores programas. De todos os que eu testei é um dos programas que mais se aproxima da proposta de evitar a falta de foco na escrita mantendo a flexibilidade do computador.
Agora, para mim, o melhor programa para produção de textos puros não é nenhum “blockbuster” da edição de texto, mas um programa muito simples, tão simples e tão funcional em seu conceito que só poderia ter saído da cabeça de um “nerd” muito louco e que é o programa que, até hoje, melhor faz a fusão entre o que a máquina de escrever tinha de melhor e o que o computador oferece em termos de flexibilidade e recursos: o WordGrinder (que também abrevio por WG aqui no texto).

O WG é um programa minúsculo que funciona em modo console, ou seja, em um terminal de linha de comando. Sua proposta é simples: emular uma máquina de escrever combinando os recursos de edição de texto dos primeiros processadores eletrônicos.
O programa lembra um pouco os primeiros editores de texto como o bom e velho WordStar, mas é bem menos complexo na utilização dos comandos do teclado: com um simples toque na tecla ESC o usuário acessa um menu cujos atalhos de teclado são facilmente (mesmo) decoráveis. Por meio destes menus e atalhos o utilizador regula a largura da tela e acessa alguns estilos pré-formatados de parágrafo. Pode selecionar blocos de texto e mudá-los de lugar com os mais que manjados ctrl+C e ctrl+V. O programa possui ainda um contador de palavras, opção para contar páginas… E só.
As grandes sacadas do WordGrinder, no meu ponto de vista, se encontram sobretudo na forma com que o programa usa a tela do computador e na maneira de lidar com os arquivos. O digitador olha para apenas uma única linha durante todo o trabalho de composição do texto. Essa linha de foco do programa, cujo efeito lembra bastante o que era escrever com as velhas máquinas eletrônicas da IBM, é marcada por uma linha seguida de setas abaixo dela, também lembrando a linha de régua, ou de marcação da fita das antigas máquinas de escrever. Cada linha produzida é rolada para cima, enquanto o cursor permanece na mesma altura na tela, mantendo os olhos de quem escreve no mesmo foco. Em suma, o programa recupera uma sensação muito próxima do que era utilizar as boas e velhas máquinas de escrever, especialmente as eletrônicas como Cássio, Brother ou IBM. Se o problema é evitar a distração e recuperar o foco do processo de escrita (o foco dos olhos sobre a página, inclusive) o programa faz isso perfeitamente. Combinado com pequenos programas de simulação de sons de máquina de escrever, como o Quertikle, então a sensação fica melhor ainda.
Com relação à forma de tratar os arquivos, o programa os armazena no formato “.wg”. Este formato permite que o usuário salve não um, mas vários documentos que esteja trabalhando em um dado momento. Por exemplo: este texto aqui é composto, na verdade, de dois documentos. Um deles é o texto principal; o outro documento é composto por anotações e notas que fiz enquanto redigia o texto principal. Ambos os documentos são armazenados em um único arquivo e são carregados pelo programa. Desta forma, o WordGrinder não salva um documento apenas, mas um conjunto deles. Para acessá-los basta acionar o menu com a tecla ESC, buscar o menu “documents” e alternar entre os documentos abertos pelo programa. Detalhe: tudo isso é feito sem o mouse, mas com uma facilidade tão grande que ele nem é necessário.
Uma vez que o texto esteja pronto, os documentos podem ser exportados para outros formatos de texto e trabalhados, aí sim, em processadores como o Word ou LibreOffice, para correções, tratamento gráfico, estético, produção de notas, elementos pré-e pós-textuais, etc. Meus últimos textos foram construídos no WG e no FocusWriter e devo dizer: me senti muito melhor trabalhando no WG. Não que o FocusWriter seja ruim, apenas que, para minhas necessidades, o WG é perfeito: por dispensar o uso do mouse e por emular a forma de tratamento do texto feito em uma máquina de escrever, o programa força o usuário a prestar atenção ao que está produzindo. O programa de fato emula uma máquina de escrever pois é preciso realmente reposicionar o cursor e apagar uma parte do texto para corrigir um parágrafo ou um bloco de texto, o que pode ser feito sem problemas mas com um pouco mais de trabalho. O que parece uma desvantagem para o usuário do WG se tranforma em um ponto positivo, pois ao tornar a edição de partes inteiras do texto um pouco mais difícil, o programa faz com que o usuário (re)adquira o hábito de pensar bem na produção da linha, uma vez que é possível selecionar um bloco grande de texto para cortá-lo e reinseri-lo em outra parte, mas não para apagá-lo. Assim, a necessidade de produzir um texto mais “definitivo”, mais pensado e mais convicto é reposta sem se perder, no entanto, a flexibilidade dos modernos editores de texto.
É claro que o leitor pode discordar deste pequeno ensaio sobre computadores e escrita de textos, achar tudo isso uma perda de tempo e ficar com o seu processador de texto com mil recursos. Sem problemas. Mas aqui falo de mim e registro um pouco da experiência de quem, há mais de vinte anos, vem lidando com tecnologias de escrita e que passou da máquina de escrever mecânica para o universo dos editores e processadores de texto. No meu caso o WordGrinder me devolveu o prazer de escrever de novo, e me permitiu retomar velhos hábitos de escrita e desenvolvê-los de uma outra forma: me concentrar na leitura de textos, tomar notas, desenvolver esquemas de trabalho e escrevê-los em um programa que combina o melhor da máquina de escrever com o melhor da flexibilidade dos processadores eletrônicos de texto é uma sensação maravilhosa! Mesmo que não seja um programa visualmente fantástico, o conceito que fundamento o WordGrinder é ótimo, e eu não tenho outra forma de terminar este texto a não ser agradecendo o autor do programa por tê-lo inventado.